domingo, 8 de junho de 2008

A 1ª vez foi a doer…

A 1ª marcha do orgulho a que assisti foi em Amesterdão, em 2005, estava na altura a viver lá temporariamente e como é evidente, toda a experiência é de uma outra realidade que não conhecemos cá.

Em Portugal, a minha 1ª marcha LGBT foi a 1ª marcha que se realizou no Porto. E foi a doer – participei no grupo organizador que ousava sair à rua, de uma forma que nunca ninguém tinha feito, numa cidade frequentemente tida como conservadora. Estávamos no ano de 2006, Gisberta tinha sido assassinada há muito pouco tempo. O movimento debatia-se com questões muito delicadas face a este hediondo crime e o tema da transfobia era, pela primeira vez, discutido intensamente.

Três anos depois, sei que todo o processo desta 1ª Marcha na Invicta, foi um risco demasiado grande. Os apoios que vinham de dentro do próprio movimento nem sempre eram os melhores. Mas fizemo-lo. Partindo de muito pouco, com quase nenhuma experiência, cometendo erros próprios de quem arrisca o que não conhece. Depois de muita discussão, entre @s mais céptic@s e @s mais optimistas, conseguimos estabelecer um consenso entre várias associações e colectivos – contávamos com a participação de alguns grupos não-LGBT que foram preciosos – e iniciamos o processo.

Toda a experiência de construção da marcha foi, para mim (e sei que para tod@s @s outr@s que lá estiveram) um dos momentos políticos mais marcantes da minha vida. A Comissão Organizadora, partindo de quase nada, foi um exemplo de democracia, de eficácia, de participação e de coragem política. Democracia, porque a estrutura sempre se preocupou em incluir tod@s nas discussões e decisões e sempre soube partilhar tarefas com a humildade suficiente de quem não quer saber se esta associação é melhor do que aquela ou faz mais isto do que a outra ou é mais LGBT do que a anterior. Eficácia, porque perante uma fasquia tão elevada, independentemente dos erros cometidos e contra tanto cepticismo e descrença, a marcha saiu à rua! Participação, porque desde logo ficou bem explícito que tod@s eram convidad@s – as diferenças políticas foram discutidas e resolvidas e a diversidade de colectivos e pessoas foi uma mais-valia feroz com que pudemos contar. Coragem, porque tod@s e cada um/a arriscou muito para participar nesta organização, lutou muito contra o medo de tod@s @s que nos vaticinaram ao fracasso desde o início e saiu em defesa de um projecto que contava com muito poucas armas para triunfar.

A 1ª Marcha LGBT no Porto aconteceu. Teve pouco mais de 200 pessoas. E foi um sucesso! De participação, de visibilidade, de cor, de alegria, de evocação da memória da Gisberta, de receptividade e ao mesmo tempo de repúdio popular. Era tudo o que uma marcha nestas condições poderia desejar. Na Marcha LGBT do Porto couberam tod@s os que lutam por um mundo mais igual, sempre respeitando a diversidade e as diferenças! Ela é por isso um exemplo para o movimento!

A Marcha LGBT no Porto vai já na sua 3ª edição e enfrenta agora o desafio do crescimento. Mas uma coisa é certa: ela veio para ficar! Já não faço parte desta organização mas tenho na memória, para sempre, a marca desse momento histórico e o orgulho (mais um…) de ter participado naquele que foi um dos acontecimentos politicamente mais importantes do movimento LGBT em Portugal.

Agora vivo em Lisboa e participarei na Marcha da capital, sempre impulsionado pela força desse momento que foi a chegada de tantas cores à praça D. João I, no dia 8 de Julho de 2006.

Bruno Maia

1 comentário:

Professor Mané disse...

http://blogmanuelino.blogspot.com/
blog "português"...